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O poder da caneta

Camilla Zeni (UFMT/Cuiabá), Laura Resende (UFMT/Cuiabá) e Bruna Barbosa (UFMT/Cuiabá)/DA REPORTAGEM

 

O olhar fixo, a mão na cintura, uma piscada de olho, um beijo no rosto ou, até mesmo, terrorismo psicológico. Gestos e palavras feitos com a intenção de atingir ao próximo, causando constrangimento ou incômodo, são exemplos de assédio moral e sexual vivenciados diariamente por alunas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)/campus de Cuiabá. A denúncia, porém, dificilmente chega às autoridades competentes e as razões são inúmeras, sendo a principal delas o medo de retaliação.

“Assédio é uma coisa muito comum dentro da UFMT”, observou Karine Justino, 22 anos, aluna do curso de Psicologia. “Um guardinha do meu bloco ficava encarando as meninas. Todas elas. Uma funcionária da limpeza nos contou uma vez que já o viu entrando no banheiro feminino”, contou. Segundo ela, as garotas procuraram a coordenação do curso para reclamar, mas nenhuma resposta pontual foi dada. No entanto, o guarda em questão não foi mais visto no bloco de ensino.

O assédio dentro do campus não é um fato passível de desconhecimento. A reportagem entrevistou na segunda-feira (12), 45 alunos de 10 cursos diferentes. Desses, 48% dos relataram terem sofrido algum tipo de assédio. Da porcentagem que não passou pela situação, 56,5% informaram conhecer alguém que vivenciou algum constrangimento.

Medo de represália é um dos principais motivos da subnotificação quanto ao registro de casos de assédio. (Imagem ilustrativa)

 

Marianna Portelada é psicóloga recém-formada pela UFMT. Durante os anos de acadêmica, trabalhou no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), ofertado gratuitamente pela instituição para a comunidade. Segundo a profissional, era comum ouvir relatos de abuso na academia, principalmente de mulheres.

Um dos depoimentos que lhe chamou a atenção foi a de uma jovem que sofreu assédio sexual de um professor do curso. Conforme se lembra, a garota relatou: “Eu estava com uma dúvida sobre como fazer parte da monitoria de uma disciplina, e, percebi uns olhares estranhos, porque eu estava de saia. Então, ele colocou a mão na minha coxa e disse que tinha certeza que eu entraria na monitoria porque sempre tomava boas decisões. Eu nem soube o que responder. Eu só queria uma oportunidade de aprender. Fiquei paralisada”.

 

Efeito dominó

Na Faculdade de Economia, uma aluna relata um fato intrigante que aconteceu dentro da sala de aula. Um professor que dava aulas para as turmas de Ciências Econômicas tinha o hábito de levar tablet e em um dia de prova passou pelas cadeiras tirando fotos das alunas. O fato veio a público após um rapaz da turma ter visto as imagens no aparelho eletrônico. Ele alertou as colegas, que levaram a situação para o conhecimento da diretoria.

A coordenadora do curso, professora doutora Sheila Cristina Ferreira Leite, recebeu as alunas para conversar. A orientação foi para que as estudantes formalizassem a denúncia por meio de um processo junto ao Protocolo Central da Universidade. Ele seria endereçado à coordenação, que daria o encaminhamento do caso junto a Pró-Reitoria de Ensino e Graduação (Proeg). No entanto, a denúncia nunca chegou.

“Eu pedi a elas porque, como somos uma instituição burocrática, eu preciso disso em documento, em processo. Então, na época, eu as orientei assim”, explicou a coordenadora. Segundo ela, o caso em questão teve “efeito dominó”.

“Uma das meninas trouxe o caso, e, a partir daí, as outras meninas começaram a reparar que algumas coisas que elas estavam considerando aceitáveis, porém traziam incomodo, não eram tão aceitáveis assim. Eram gracejos, comentários estranhos em sala de aula, pegar no braço, invasão de espaço”, explicou.

 

Subnotificação

As acadêmicas de Economia não estão sozinhas quando a questão é não denunciar. As entrevistas feitas com estudantes na UFMT mostraram que dos assédios que vieram à tona, apenas 14,28% foram denunciados.

 

“Ainda há aquela relação de professor-aluno. A caneta tem o poder. Então, eles têm medo de sofrer represálias no ponto que mais lhes importa, que são nas notas”, observou a coordenadora

 

A psicóloga explica que quando ocorre uma situação de assédio sexual ou moral as pessoas envolvidas têm sua sensação de segurança roubada, além de se sentirem acuadas, em um ambiente em que deveriam exercer sua liberdade de pensar, fazer e ser.

Indignados com a situação recorrente, alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo realizaram uma ação na Faculdade de Arquitetura, Engenharia e Tecnologias (Faet) para chamar a atenção para o caso.

“A ideia era fazer uma intervenção no espaço físico da FAET. A maioria dos relatos foi feita de forma anônima, por meio de um formulário on-line. Nós colocamos os cartazes em lugares que chamariam bastante atenção”, contou Mariana Hondo, do 8º semestre. Conforme a acadêmica, a ação durou apenas um dia, pois os cartazes foram arrancados das paredes.

Para a coordenadora do curso de Economia, o número de denúncias é baixo, em razão do medo que as vítimas sentem em denunciar um superior. “Ainda há aquela relação de professor-aluno. A caneta tem o poder. Então, eles têm medo de sofrer represálias no ponto que mais lhes importa, que são nas notas”, observou.

É preciso avançar!

No entanto, para alguns, a denúncia não é formulada porque o aluno não vê perspectiva em fazê-la. Para esses a voz corrente é: “Tem professor que tem vários casos contra eles, mas que não dão em nada”; “Porque ele é professor aqui há anos”; “Porque ele vai ser julgado por uma comissão formada por colegas dele, e o aluno fica sem respaldo”. Portanto, enquanto não houver um setor específico para denúncias dentro da universidade, o problema não será resolvido, e a violência seguirá vedada por entre os corredores.

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Um pensamento sobre “O poder da caneta

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