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Morador de rua relata tentativa de assassinato

Fernando Ribeiro (UFMT/Barra do Garças)/DA REPORTAGEM

Escultura do artista plástico Jonas Corrêa é dedo apontado para o o coração da capital (Foto: Tony Ribeiro/MídiaNews)

De um lado a injustiça social faz vítimas diariamente, de outro ganha corpo a sede de justiça com as próprias mãos. Essa combinação pode ser observada nas histórias de R.R. da Silva, de 17 anos, de São Bernardo do Campo (na Grande São Paulo), e Eleandro de Souza, de 25 anos, morador de rua em Cuiabá. O primeiro foi tatuado na testa (“Eu sou ladrão e vacilão”) dias atrás por tentar roubar uma bicicleta e a Polícia Civil prendeu em flagrante os responsáveis pelo ato, o tatuador Maicon Carvalho dos Reis e seu vizinho, Ronildo Moreira de Araújo. Eleandro quase foi morto queimado por causa de um desentendimento, não houve BO e, portanto, o caso não existe oficialmente.

Eleandro, o Intocável do Candeeiro (crônica de Joice Santos)

 

Ele sofreu a tentativa de assassinato no, no centro histórico da capital de Mato Grosso. O rapaz é dependente de drogas e vive nas ruas desde 2002. A data da tentativa de assassinato não foi precisada por Eleandro, mas, curiosamente, aconteceu nas proximidades do Beco do Candeeiro”, onde ocorreu uma chacina de três adolescentes em 1998.

Eleandro conta que enquanto dormia alguém se aproximou e ateou fogo nele. Na mão, o documento de identidade, parcialmente queimado, mostra vestígios da violência. Segundo ele, o motivo para a agressão teria sido um desentendimento que teve com um homem, por não ter concluído um serviço de construção de uma calçada.

 

O movimento da rua

Em meio a outros dependentes químicos, prostitutas e traficantes, o movimento de civis continua normal enquanto entrevistamos Eleandro. Em nossa frente, a estátua “dos meninos da Travessa do Candeeiro”, já destruída outras vezes, faz parte do cenário que compõe o local. Para Eleandro, a chacina foi uma injustiça. Ele se sente triste ao falar do que aconteceu, por ser também um morador de rua. Parece haver um sentimento de reciprocidade presente nas palavras do jovem que corre os mesmos riscos de três décadas atrás. Se tivesse outra oportunidade, “com certeza eu mudaria de vida”, disse o morador de rua.

Beco do Candeeiro, no centro histórico de Cuiabá. (Foto: Tony Ribeiro/MídiaNews)

Já a pedagoga e empresária Josiane Carvalho Maia, proprietária de um mercado na praça do Candeeiro, diz que tem sido difícil conviver com a situação, pois sempre teve seu estabelecimento invadido pelos moradores de rua que vivem no local. Ela acredita que a violência que essas pessoas sofrem não é a melhor solução, mas algumas vezes essas atitudes podem ser justificadas pelo sentimento de impunidade. “Quantas vezes o policial foi vítima desses jovens para que ele tenha agido dessa forma?”, indaga Josiane ao se referir aos adolescentes vítimas da chacina que teria sido provocada por militares.

 

Dois pesos, duas…

Sobre a aplicação da justiça, a empresária disse que o tratamento deve ser diferente. Ela acredita que o policial acusado de matar os adolescentes, deve ter um tratamento especial, isto é, mais brando (o ex-PM Adeir de Souza Guedes Filho foi absolvido por júri popular em 2014). Já o morador de rua deve ter um tratamento mais rígido. Mesmo assim, ela acredita que medidas socioeducativas devem ser aplicadas como forma de resolver a situação dos moradores de rua.

No caso de R.R. da Silva, cujo vídeo com a testa tatuada causou repercussão nas redes sociais, a pedagoga e empresária comentou que não concorda com o que foi feito com o jovem, porém repetiu que o sentimento de impunidade colabora para que essas atitudes aconteçam.

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Um pensamento sobre “Morador de rua relata tentativa de assassinato

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