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CRÔNICA – O Intocável do Candeeiro

Joice Santos (UFMT/Barra do Garças)/DA REPORTAGEM (Foto de capa: Chico Ferreira/Gazeta Digital)

Não é só mais um Silva. Eleandro de Souza tem estudo, fala bem e possui uma fé quase inabalável. A pupila do olho castanho do jovem de 25 anos gritava e sorria assim como sua face. Usuário de tantas drogas viu vários dos seus morrerem no Beco do Candeeiro, no centro de Cuiabá. As consequências da vida, como ele mesmo costuma dizer, o trouxeram ao exílio daquela rua cheia de ratos, putas e drogas, esquecida da cidade e das políticas públicas. Longe da boemia brasileira de clássicos e aplausos, como na Lapa do Rio ou na Vila Madalena de Sampa, Eleandro sobre(vive).

Conheça um pouco mais da história de Eleandro na matéria de Fernando Ribeiro

A pele mestiça, o sotaque puxado do bom cuiabanês, a calça jeans surrada e um sorriso surreal da droga presente no seu corpo. Desde 2002 a realidade ensinou o jovem a comer ofertas, sorrir e agradecer por não morrer de peste branca. Esse é o apelido que ele mesmo deu à droga, comparando-a à peste dos fins dos tempos relatado no Apocalipse da Bíblia.

“Você tem uma oratória que não aprendemos na faculdade e uma vivência de mundo inimaginável.”

 

O vício é uma forte mistura de crack, base, cocaína e óleo de cozinha. O cheiro forte, que fazia lacrimejar e deixava tonto, embalava a conversa saudosa que despertava olhares de reprovação em toda vizinhança. Não somos iguais Eleandro. “Você tem uma oratória que não aprendemos na faculdade e uma vivência de mundo inimaginável. Mas as diferenças não acabam por aí. O Candeeiro não é sua casa, também não é minha. Doeu mais em você a morte dos três adolescentes. Eram seus ‘manos de peste’. Em mim não doeu. Embora haja uma diferença entre as datas do acontecimento e sua entrada no vício do beco a cicatriz ficou marcada em todos dali. É ferida aberta. Dói. Seus olhos marejados condenam, como você mesmo diz, ‘as consequências da vida que um minuto de bobeira faz com o individuo’”.

“O Candeeiro é sua sensatez e loucura. E embora a Pastoral de Rua sempre te ajude com um banho pra limpar o corpo, somos iguais em um ponto apenas: estamos todos com nossas almas imundas.”

 

Eleandro é estatística desprezível. É conta aberta do Estado. É higienização compulsória e malsucedida. Eleandro é número. Existem vários por aí. Muitos na Cracolândia, em São Paulo, outros no interior do Brasil jogados nas BR’s. Há números que despertam ira do estado e desaparecem dia após dias nos complexos penitenciários. E mesmo mortos continuam números.

Sobrevivestes ao desprezo dos transeuntes e ao escárnio social. Intocável. Sublime na sua utópica ideia de igualdade. Tens razão quando diz que “no fim tudo é pó”, mas a que ventos seremos jogados? O Candeeiro é sua sensatez e loucura. E embora a Pastoral de Rua sempre te ajude com um banho pra limpar o corpo, somos iguais em um ponto apenas: estamos todos com nossas almas imundas.

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2 pensamentos sobre “CRÔNICA – O Intocável do Candeeiro

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